Mobilização pela luta contra o ódio dá o tom na entrega do Prêmio 'Zumbi dos Palmares'

- Vinicius Lousada

Ana Maria da Silva, Fátima Ferreira Campos Santos e Sivaldo Camargo foram os homenageados da edição de 2019

“Além do preconceito, hoje nós enfrentamos também o ódio e a intolerância”. Esse foi a tônica do discurso do professor de balé e coreógrafo Sivaldo Camargo, um dos homenageados da edição de 2019 do Prêmio “Zumbi dos Palmares”, entregue em Sessão Solene, na noite desta quinta-feira (21/11), na Câmara de Bauru. Fátima Ferreira Campos Santos e Ana Maria da Silva também foram contempladas com a honraria, que reconhece cidadãos ou instituições que se dedicam à luta contra o racismo e outras intolerâncias. Assista

O ataque sofrido pelo professor Juarez Xavier na quarta-feira (20/11), Dia da Consciência Negra, também foi lembrado em nota de repúdio lida pela presidente do Conselho Municipal da Comunidade Negra, Greice dos Santos Luiz.

A vítima foi chamada de “macaco” pelo agressor e, ao reagir, foi ferido com um canivete. O caso foi registrado como injúria racial e lesão corporal dolosa. O agressor pagou fiança no valor de R$ 1 mil e responderá em liberdade.

“O racista que não gosta de um preto não gosta de nenhum. Mexeu com um mexeu com todos. Se a gente ficar quieto, vai multiplicar. Foi o Juarez. Pode ser amanhã eu, você ou os nossos parentes. É necessário a gente refletir e ter a consciência de que precisamos modificar essa realidade. Estão nos matando”, disse Greice, que alertou para o ato de apoio ao professor Juarez, marcado para as 18h do dia 22 de novembro, em frente à Câmara Municipal.

Presidente da Sessão Solene, a vereadora Yasmim Nascimento (PSC) também repudiou o episódio. “Foi açoitado com palavras”.

Ao recuperar frase atribuída a Zumbi – “É chegada a hora de tirar nossa nação das trevas da injustiça racial” -, a parlamentar pediu licença para adequar a citação: “Já passou da hora”.

Yasmim também enalteceu Silvaldo, Aninha e Fátima, destacando as personalidades dos homenageados.

“São referências de pessoas trabalhadoras, guerreiras, que, desde que nasceram, tiveram que enfrentar o preconceito por causa da cor da pele”, afirmou a vereadora.

Também prestigiaram a solenidade os parlamentares Sandro Bussola (PDT), Mané Losila (PDT), Markinho Souza (PP) e Miltinho Sardin (PTB), que secretariou os trabalhos, além do ex-vereador Roque Ferreira. O Poder Executivo Municipal foi representado pelos secretários de Cultura, Rick Ferreira, e do Bem-Estar Social, José Carlos Fernandes.

Tom político

Na solenidade, Sivaldo Camargo falou em nome dos premiados. Ao relembrar as barreiras do preconceito racial e de gênero – por conta do balé - no desenvolvimento de seu trabalho, que tem como propósito “levar a bandeira da arte a todos”, falou sobre o cenário político nacional, com duras críticas ao governo Jair Bolsonaro: “Todos temos que nos juntar e combater a intolerância e o ódio”.

De acordo com o homenageado, políticas públicas e inciativas de conselhos de comunidades implantadas com o objetivo de cicatrizar parte das feridas do racismo estão sendo colocadas “por água abaixo” pela gestão federal.

O professor lembrou que, durante a escravidão, negros e negras não aceitavam passivamente a exploração. “A história não conta, mas houve muita luta”, frisou.

Antes, Sivaldo pediu uma salva de palmas a todos os homenageados e homenageadas em edições anteriores do Prêmio “Zumbi dos Palmares”.

Os premiados são indicados à Mesa Diretora do Legislativo pelo Conselho Municipal da Comunidade Negra.

Trajetórias

Ana Maria da Silva: Conhecida como Aninha da Emdurb, é servidora pública municipal há 10 anos. Ganhou o apelo graças a seu carisma. Sente orgulho de ser gari, de ganhar a vida deixando limpas as ruas, esquinas e vielas de Bauru. Mulher, negra, criou os 3 filhos sozinha como muitas mulheres brasileiras. Lembra que, para criar a filha do meio, teve a grande ajuda de outra mulher: uma das avós dos filhos.

Fátima Ferreira Campos Santos: É servidora pública aposentada da Prefeitura, moradora tradicional da Bela Vista, sambista de primeira linhagem e, há muitos anos, realiza a “Feijoada da Fátima” - atividade que agrega dezenas de sambistas de raiz, como forma de resistência e preservação dos valores culturais.

Sivaldo Camargo: Iniciou seus estudos de Dança e Teatro em 1980 na cidade de São Paulo. Teve como mestres: Ismael Guiser, Ivonice Satie, Yoko Okada, Augusto Pompeu, entre outros. Professor de Dança desde 1985 em diversas cidades do Brasil, foi diretor artístico do grupo de teatro “Azeite de Mamona” durante 8 anos. Neste período, dirigiu vários musicais; entre eles: “Tropicália Bananas ao Vento”, de Sivaldo Camargo; “Mulheres de Atenas” de Augusto Boal; e “Arena Conta Zumbi” de Guarnieri e Boal, com músicas de Edu Lobo. Foi professor de teatro na FCL-Unesp-Assis e FAAC-Unesp-Bauru. Desde 2012, é diretor e professor da Companhia Estável de Dança de Bauru, pela qual dirigiu os espetáculos “Cores e Gestos”, “Frida”, “Baluarte”, “Carmen” e “Morte e Vida Severina”.