CEI da Cohab ouve funcionários que sacavam dinheiro com destinação não comprovada

- Vinicius Lousada

Chefe da contabilidade e responsável pelo seguro habitacional também prestaram esclarecimentos na Câmara de Bauru; centralização do controle dos valores em espécie no ex-presidente Gasparini Júnior foi relatada

A Comissão Especial de Inquérito (CEI) que apura eventuais irregularidades cometidas na gestão da Companhia de Habitação Popular de Bauru (Cohab) ouviu, nesta terça-feira (10/03), quatro funcionários do órgão. Dois deles, nos últimos anos, efetuaram saques em agências bancárias que, a cada mês, totalizavam cerca de R$ 400 mil e para os quais não há recibos que comprovem a destinação do dinheiro. Assista à íntegra

A primeira oitiva do dia, entretanto, se deu com Miriam Renata de Castro Navarro – chefe do Serviço de Fundo de Compensação de Variações Salariais (FCVS).

A partir de 2010, ela também assumiu a responsabilidade sobre os débitos da Cohab com o Seguro Habitacional e declarou que, desde então, os compromissos vêm sendo honrados, embora haja passivo acumulado de períodos anteriores.

Miriam Renata disse ainda não saber as razões que levaram a companhia a não pagar o seguro entre 1998 e 2010. Essa dívida, segundo o contador Marcelo Alba – também ouvido pela CEI nesta terça-feira –, foi apurada em R$ 140 milhões, mas a companhia, por sua vez, possui créditos de R$ 88 milhões represados.

Sobre o dinheiro sacado com destinação não comprovada, a funcionária declarou não ter conhecimento sobre eventuais desvios ou participação de agentes políticos em irregularidades.

Questionada, Miriam Renata também falou sobre as recorrentes viagens a Brasília acompanhada pelo então presidente da Cohab, afastado após a Operação “João de Barro”, Gasparini Junior, e de outros membros da equipe, alegando que todas foram de natureza técnica.

Saques

Thayná Maximiano Salcedo e David Oliveira Bassotto, em sequência, prestaram esclarecimentos à CEI da Cohab. Os dois foram responsáveis por fazer os saques semanais nos últimos anos e disseram ter se surpreendido com a veiculação de notícias de que não havia recibo que comprovasse a destinação dos recursos que retiravam de agências bancárias. Os saques, efetuados a partir de cheques, eram de até R$ 95 mil.

Ambos admitiram que, inicialmente, estranharam movimentações tão grandes em espécie, mas foram convencidos de que este era o modus operandi para o suposto pagamento do seguro, assunto, desde sempre, tratado exclusivamente por Gasparini Junior, conforme informaram aos parlamentares.

Thayná relatou que, quando sacava o dinheiro, entregava-o para seu superior, Marcelo Alba, que, por sua vez, repassava os valores ao ex-presidente. Depois, quando a funcionária assumiu a chefia do serviço financeiro, David passou a sacar e entregar a ela, que encaminhava, então, os malotes a Gasparini.

Aos vereadores, Thayná disse nunca ter visto ninguém saído da Cohab com o dinheiro. Com formação em Recursos Humanos, ela relatou ter chegado a propor que o pagamento do seguro fosse efetuado por transferências eletrônicas, mas a medida não foi aceita.

David falou que não se recorda de quando efetuou o último saque de dinheiro para a companhia, por se tratar de atribuição bastante recorrente; mas acredita que tenha sido em dezembro de 2019, antes de ter sido deflagrada pelo Ministério Público a Operação “João de Barro”.

O funcionário também pontuou que o dinheiro sacado nem sempre vinha em notas de R$ 100,00, como as notas apreendidas na casa de Gasparini.

Na contabilidade

Marcelo Alba foi o último a participar da reunião da CEI nesta terça-feira. Ele, que, anteriormente, além da contabilidade já acumulou a chefia do setor financeiro, relatou que, mesmo sem recibos, por determinação de Gapsarini Júnior, lançava na contabilidade da companhia os valores estipulados pelo ex-presidente como em abatimento de débitos com o seguro.

Segundo ele, os valores mensais variavam, mas, em média, giravam em torno de R$ 400 mil e R$ 600 mil – totalizando mais de R$ 54 milhões entre 2007 e 2019.

Questionado, Alba reiterou o poder de persuasão do ex-presidente para justificar os lançamentos sem comprovantes.

Apesar disso, garantiu que cobrava a importância dos recibos, mas o suposto controle sempre ficou centralizado em Gasparini.

O contador disse que se incomodava com a situação, tanto que chegou a pedir demissão por duas vezes, mas ponderou que, apesar disso, acreditava no que era assegurado pelo ex-presidente.

Segundo Marcelo Alba, até mesmo a questão da segurança dos funcionários que sacavam o dinheiro foi colocada por ele. Ele pontuou, inclusive, que havia situações em que os valores sacados não correspondiam ao montante esperado, faltando cédulas em valores como R$ 50,00.

Questionado, o funcionário disse não saber se o ex-diretor financeiro, Paulo Gobbi, tinha conhecimento sobre o modus operandi, mas afirmou que deveria saber.

Marcelo é servidor da Cohab desde a década de 1987. Em 2014, assumiu a chefia da contabilidade. À época, a prática dos saques já ocorria, segundo ele.

Próximas oitivas

No dia 20 de março (sexta-feira), a CEI da Cohab faz novas oitivas. Para as 9h30, é esperado o ex-prefeito Antônio Tidei de Lima, na condição de convidado. Já o procurador do município Maurício Porto foi convocado para as 10h.

Comissão

A CEI da Cohab é presidida pelo vereador Natalino da Silva (PV). Markinho Souza (PP) é relator. São membros Sandro Bussola (PDT), Luiz Carlos Barbosa (PRB) e Edvaldo Minhano (Cidadania), que, nesta terça-feira (10/03), solicitou o desligamento da comissão.

Da reunião de hoje também participaram os parlamentares Coronel Meira (PSB), Chiara Ranieri (DEM), Francisco Carlos de Góes – Carlão do Gás (MDB) e José Roberto Segalla (DEM).

A reunião também foi acompanhada por representantes da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-Bauru).